Documentação técnica

Vazão de projeto dos trechos: consumo máximo possível e provável (pesos relativos)

Como se calcula a vazão que passa em cada trecho da rede de água fria e quente: somando as vazões das peças (máximo possível) ou pelo método dos pesos relativos da NBR 5626 (máximo provável). Tabelas de vazão e peso por peça, fórmula, exemplo e como o UnMEP Aqua aplica.

Cada trecho da rede alimenta um conjunto de peças de utilização (lavatório, chuveiro, bacia, pia…). A vazão de projeto do trecho é a vazão que ele tem de levar para essas peças funcionarem. Há duas maneiras de chegar nela, e a escolha muda o diâmetro de tudo que está a montante.

O que a NBR 5626 pede

  • Cada peça tem uma vazão de projeto própria (o que ela consome quando aberta) e uma pressão dinâmica mínima para funcionar: a necessária para assegurar essa vazão, obtida do fabricante ou pelo fator de vazão da peça, Q=KPQ = K\sqrt{P} (NBR 5626:2020, 6.9.1 e 6.9.2). O projeto tem de explicitar as vazões consideradas em cada ponto de utilização (6.7.1).
  • Para um trecho que alimenta várias peças, a norma admite considerar que nem todas abrem ao mesmo tempo. A edição de 1998 trazia, no Anexo A (normativo), o método dos pesos relativos: a tabela A.1 de vazão e peso por peça e a fórmula Q=0,3∑PQ = 0{,}3\sqrt{\sum P} (A.1.2). A edição de 2020 não repete a tabela nem a fórmula: ela pede um método "reconhecido ou devidamente fundamentado, seja ele empírico ou probabilístico", justificado no memorial (6.14.1 e 6.14.2). O método dos pesos continua sendo o mais usado no Brasil.
  • Somar simplesmente as vazões de todas as peças é o consumo máximo possível. A própria NBR 5626:1998 (A.1.1) avisa que o método dos pesos vale para o uso normal da água e não se aplica ao uso intensivo, como cinemas, escolas, quartéis e estádios, onde é preciso fixar caso a caso o padrão de uso e a demanda máxima. Na prática, o possível vale para trechos que de fato podem ter tudo aberto junto (um banheiro só, uma bateria de chuveiros de vestiário, uma lavanderia coletiva).

Método 1: consumo máximo possível

A vazão do trecho é a soma das vazões das peças que ele alimenta:

Q=∑iqiQ = \sum_{i} q_i

É o método a favor da segurança. Em trechos com muitas peças ele superdimensiona, porque um prédio inteiro nunca abre todas as torneiras ao mesmo tempo.

Método 2: consumo máximo provável (pesos relativos)

Cada peça recebe um peso proporcional ao quadrado da sua vazão (P=(q/0,3)2P = (q/0{,}3)^2, com qq em L/s). A vazão provável do trecho sai da soma dos pesos:

Q=0,3 ∑iPi[L/s]Q = 0{,}3\,\sqrt{\sum_{i} P_i} \quad [\text{L/s}]

Quanto mais peças, menor a chance de todas estarem abertas, e a raiz quadrada traduz isso: dobrar o número de peças iguais aumenta a vazão em 41 %, não em 100 %.

Vazões e pesos por peça

A tabela A.1 da NBR 5626:1998, que as famílias de peças do UnMEP Aqua trazem nos seus parâmetros de vazão e peso:

Aparelho sanitárioPeça de utilizaçãoVazão de projeto (L/s)Peso relativo
Bacia sanitáriaCaixa de descarga0,150,3
Bacia sanitáriaVálvula de descarga1,7032
BanheiraMisturador (água fria)0,301,0
BebedouroRegistro de pressão0,100,1
BidêMisturador (água fria)0,100,1
Chuveiro ou duchaMisturador (água fria)0,200,4
Chuveiro elétricoRegistro de pressão0,100,1
Lavadora de pratos ou de roupasRegistro de pressão0,301,0
LavatórioTorneira ou misturador (água fria)0,150,3
Mictório cerâmico com sifão integradoVálvula de descarga0,502,8
Mictório cerâmico sem sifão integradoCaixa de descarga, registro de pressão ou válvula de descarga para mictório0,150,3
Mictório tipo calhaCaixa de descarga ou registro de pressão0,15 por metro de calha0,3
PiaTorneira ou misturador (água fria)0,250,7
PiaTorneira elétrica0,100,1
TanqueTorneira0,250,7
Torneira de jardim ou lavagem em geralTorneira0,200,4

A ducha higiênica não está na tabela; a prática usa o valor do bidê (0,10 L/s, peso 0,1).

Exemplo resolvido

Ramal que alimenta um banheiro (lavatório, bacia com caixa acoplada, chuveiro elétrico) e a área de serviço (pia de cozinha, tanque, máquina de lavar).

GrandezaSímboloValor
Lavatórioqq, PP0,15 L/s, peso 0,3
Bacia com caixa acopladaqq, PP0,15 L/s, peso 0,3
Chuveiro elétricoqq, PP0,10 L/s, peso 0,1
Pia de cozinhaqq, PP0,25 L/s, peso 0,7
Tanqueqq, PP0,25 L/s, peso 0,7
Máquina de lavarqq, PP0,30 L/s, peso 1,0
Consumo máximo possívelQ=∑iqi\boldsymbol{Q = \sum_{i} q_i}Q=0,15+0,15+0,10+0,25+0,25+0,30=1,20 L/sQ = 0{,}15 + 0{,}15 + 0{,}10 + 0{,}25 + 0{,}25 + 0{,}30 = 1{,}20 \text{ L/s}
Consumo máximo provável

Soma dos pesos:

∑P=0,3+0,3+0,1+0,7+0,7+1,0=3,1\sum P = 0{,}3 + 0{,}3 + 0{,}1 + 0{,}7 + 0{,}7 + 1{,}0 = 3{,}1

Vazão provável:

Q=0,3 ∑iPi\boldsymbol{Q = 0{,}3\,\sqrt{\sum_{i} P_i}}Q=0,3 3,1=0,53 L/sQ = 0{,}3\,\sqrt{3{,}1} = 0{,}53 \text{ L/s}

Menos da metade do método possível. Com velocidade de 2 m/s, o trecho pede interno de 18 mm (DN 25) no provável e de 28 mm (DN 32) no possível.

Para um só chuveiro, os dois métodos coincidem: 0,30,4=0,19≈0,200{,}3\sqrt{0{,}4} = 0{,}19 \approx 0{,}20 L/s. A diferença aparece conforme as peças se acumulam.

Como o UnMEP Aqua calcula

O método é escolhido em Definições de Projeto, nos cartões Consumo Máximo Provável (padrão) e Consumo Máximo Possível, e vale para o projeto inteiro: ao avançar, o Aqua grava em todas as peças e equipamentos do modelo qual método está ativo.

  • As famílias de peças do UnMEP trazem a vazão e o peso da tabela acima nos parâmetros. Para usar o valor do fabricante, edite o parâmetro na família: o cálculo lê de lá.
  • Ao calcular a pressão de uma peça, o Aqua anda da peça até o reservatório e, em cada trecho, soma as vazões (possível) ou os pesos (provável) de tudo que está a jusante, aplicando 0,3∑P0{,}3\sqrt{\sum P} no segundo caso. A vazão de cada trecho vai para o parâmetro UnMEP: Vazão do tubo e para a coluna Q do memorial.
  • Trocar o método depois de calcular exige recalcular as peças, porque os resultados gravados no modelo não se atualizam sozinhos.
Definições de Projeto: os dois cartões do método de cálculo da vazão
Definições de Projeto: os dois cartões do método de cálculo da vazão
Verificações Hidráulicas: as peças calculadas, cada uma com a pressão disponível
Verificações Hidráulicas: as peças calculadas, cada uma com a pressão disponível

Passo a passo no plugin: Entenda: consumo máximo provável e consumo máximo possível e Como verificar a pressão nas peças de água fria?.

Perguntas frequentes

Qual método usar? Provável para prédios e casas, que é o que a norma e a prática consagraram. Possível para trechos que realmente podem ter tudo aberto junto: vestiários, lavanderias coletivas, laboratórios, ou quando o cliente exige.

Posso misturar os métodos no mesmo projeto? No Aqua, não: o método é do projeto. Se um trecho específico exige o possível, calcule-o à parte ou adote o maior peso.

A tabela de 1998 ainda vale? A NBR 5626:2020 não traz mais a tabela, mas não a proíbe: ela aceita qualquer método reconhecido, empírico ou probabilístico, desde que justificado no projeto (6.14.2). Como as peças antigas consumiam mais que as atuais, usar os valores de 1998 fica a favor da segurança. O ideal é informar a vazão do fabricante na família.

Numa peça com misturador, os pesos de AF e AQ se somam? Não. Cada lado da família tem o seu conector, com vazão e peso próprios. A rede fria soma só os conectores frios e a quente só os quentes. Os valores de cada lado são os da tabela da NBR 5626 para aquele lado, não a metade do total da peça.

Fontes

  • ABNT NBR 5626:1998, Instalação predial de água fria (Anexo A: A.1.2 e tabela A.1, vazões e pesos relativos).
  • ABNT NBR 5626:2020, Sistemas prediais de água fria e água quente: projeto, execução, operação e manutenção.
  • Macintyre, A. J. Instalações Hidráulicas Prediais e Industriais. LTC, 4ª ed., 2010.

Mais em Água fria e quente

Atualizado em 15 de outubro de 2026