Documentação técnica

Perda de carga em tubulações de água: Darcy-Weisbach e Fair-Whipple-Hsiao

Como se calcula a pressão que a água perde por atrito no tubo e nas conexões. A fórmula universal de Darcy-Weisbach com o fator de atrito de Colebrook-White, a fórmula prática de Fair-Whipple-Hsiao para PVC e cobre, rugosidade e viscosidade, comprimentos equivalentes, exemplo e como o UnMEP Aqua calcula.

Toda a verificação de pressão de uma rede de água fria ou quente depende de um número: quanto de pressão a água perde por metro de tubo numa dada vazão. É a perda de carga unitária JJ, em metros de coluna d'água por metro (mca/m). Multiplicada pelo comprimento do trecho, dá a perda distribuída; aplicada ao comprimento equivalente das conexões, dá a perda localizada.

Gráfico da perda de carga unitária por Fair-Whipple-Hsiao em função da vazão, para PVC DN 20 a DN 50: a perda cresce rápido com a vazão e cai muito a cada diâmetro acima

O que a NBR 5626:2020 pede

A norma não impõe uma fórmula. Ela exige que as perdas de carga e as pressões dinâmicas nos pontos de utilização sejam calculadas "mediante o emprego de equações pertinentes" (item 6.14.4), e a nota do item diz que a equação universal (Darcy-Weisbach) é a mais indicada; quem usa equação empírica deve adotar a mais adequada ao material e ao diâmetro do trecho. Os diâmetros saem das velocidades e vazões, do ruído, do material e da perda de carga disponível, de modo a garantir a pressão dinâmica mínima de cada peça (6.14.3). A edição de 1998 dizia o mesmo com mais detalhe (A.2.1): recomendava a equação universal com a rugosidade informada pelo fabricante do tubo e, na falta dela, as expressões de Fair-Whipple-Hsiao, que ela própria trazia. São as duas fórmulas que dominam a prática brasileira: Darcy-Weisbach, universal, e Fair-Whipple-Hsiao, empírica e feita para tubos de pequeno diâmetro de instalações prediais.

Darcy-Weisbach

J=f v22 g DJ = f\,\frac{v^2}{2\,g\,D}
  • vv: velocidade da água (m/s), v=4Q/(πD2)v = 4Q/(\pi D^2);
  • DD: diâmetro interno (m);
  • gg: 9,81 m/s²;
  • ff: fator de atrito, adimensional, que depende do regime de escoamento e da rugosidade.

Número de Reynolds

Re=v DνRe = \frac{v\,D}{\nu}

com ν\nu a viscosidade cinemática da água: 1,004 × 10⁻⁶ m²/s a 20 °C (água fria) e 0,658 × 10⁻⁶ m²/s a 40 °C (água quente).

Fator de atrito

  • Re<2 000Re < 2\,000, regime laminar: f=64/Ref = 64 / Re.
  • Re≥2 000Re \geq 2\,000, regime turbulento, equação de Colebrook-White:
1f=−2 log⁡10 ⁣(ε3,71 D+2,51Re f)\frac{1}{\sqrt{f}} = -2\,\log_{10}\!\left(\frac{\varepsilon}{3{,}71\,D} + \frac{2{,}51}{Re\,\sqrt{f}}\right)

A incógnita ff aparece dos dois lados, então a equação se resolve por iteração (Newton-Raphson, partindo de 1/f=11/\sqrt{f} = 1, converge em poucas voltas). ε\varepsilon é a rugosidade absoluta da parede do tubo.

Rugosidade por material

Materialε\varepsilon (mm)
PVC soldável0,06
CPVC0,06
PPR0,007
PEAD0,007
PEX0,007
Aço galvanizado0,016
Material não identificado0,06

Os valores de PVC e CPVC estão do lado conservador (tubo usado, com incrustação leve); os dos plásticos lisos são de tubo novo. Fonte: catálogos dos fabricantes.

Fair-Whipple-Hsiao

Fórmula empírica para tubos lisos de pequeno diâmetro (plástico e cobre, DN 12,5 a 100 mm), que dispensa o fator de atrito:

J=8,69×105 Q1,75D4,75J = 8{,}69 \times 10^{5}\,\frac{Q^{1{,}75}}{D^{4{,}75}}

com QQ em L/s, DD interno em mm e JJ em mca/m. A NBR 5626:1998 (A.2.1) escreve a mesma expressão em kPa/m, J=8,69×106 Q1,75 d−4,75J = 8{,}69 \times 10^{6}\,Q^{1{,}75}\,d^{-4{,}75}, para tubos lisos (plástico, cobre ou liga de cobre); dividir por 10 (1 mca ≈ 10 kPa) dá a forma em mca/m. Para tubos rugosos (aço-carbono, galvanizado ou não) ela traz J=20,2×106 Q1,88 d−4,88J = 20{,}2 \times 10^{6}\,Q^{1{,}88}\,d^{-4{,}88}, também em kPa/m. (Com QQ em m³/s e DD em m, a fórmula dos tubos lisos fica J=0,000869 Q1,75/D4,75J = 0{,}000869\,Q^{1{,}75}/D^{4{,}75} mca/m.) A dependência com D−4,75D^{-4{,}75} é o que faz um diâmetro comercial acima cortar a perda a um terço.

Para água quente a perda real é um pouco menor (viscosidade menor); usar a mesma fórmula fica a favor da segurança.

Perdas localizadas: comprimento equivalente

Cada conexão (joelho, tê, registro, válvula) perde o mesmo que um certo comprimento de tubo reto do mesmo diâmetro, o comprimento equivalente LeqL_{eq}, tabelado por tipo e diâmetro. A perda do trecho fica:

Δh=J (L+∑Leq)\Delta h = J\,(L + \sum L_{eq})

A tabela A.3 da NBR 5626:1998 dá os valores para tubo liso (plástico, cobre ou liga de cobre), em metros de tubo:

DNCotovelo 90°Cotovelo 45°Curva 90°Curva 45°Tê passagem diretaTê passagem lateral
201,20,50,50,30,82,4
251,50,70,60,40,93,1
322,01,00,70,51,54,6
403,21,01,20,62,27,3
503,41,31,30,72,37,6

A tabela segue até DN 150, e a A.2 traz os valores para tubo rugoso (aço). Registros: o de gaveta aberto é de passagem plena e tem perda pequena, que a norma manda desprezar (A.2.3); o de pressão (globo) perde muito e entra pelo coeficiente KK do fabricante ou pelo comprimento equivalente do catálogo (cerca de 11 m para DN 25). Válvula de retenção e válvula de pé com crivo vêm do catálogo (da ordem de 2 a 4 m e de 8 a 10 m, respectivamente, em DN 25 a 32). Quando não dá para prever as conexões, a norma admite estimar o comprimento equivalente como 10 % a 40 % do comprimento real, conforme a complexidade do traçado (A.2.2). A conexão PEX tem valores próprios (Perda de carga em conexões PEX).

Exemplo resolvido

Trecho de DN 32 (interno 27,8 mm) com vazão de 0,444 L/s, 18 m de tubo e 6,5 m de comprimento equivalente (dois cotovelos de 90°, duas curvas de 45° e um tê de passagem direta pela tabela A.3).

GrandezaSímboloValor
Diâmetro interno (PVC DN 32)DD27,8 mm
VazãoQQ0,444 L/s
Comprimento realLL18 m
Conexões (tabela A.3, DN 32)Leq,iL_{eq,i}2 cotovelos de 90° (2,0 m cada), 2 curvas de 45° (0,5 m cada), 1 tê de passagem direta (1,5 m)
Rugosidade do PVCε\varepsilon0,06 mm
Viscosidade da água a 20 °Cν\nu1,004×10−61{,}004 \times 10^{-6} m²/s
Fair-Whipple-Hsiao

Comprimento equivalente das conexões:

Leq=∑Leq,i\boldsymbol{L_{eq} = \sum L_{eq,i}}Leq=2×2,0+2×0,5+1,5=6,5 mL_{eq} = 2 \times 2{,}0 + 2 \times 0{,}5 + 1{,}5 = 6{,}5 \text{ m}

Perda unitária, com QQ em L/s e DD em mm:

J=8,69×105 Q1,75D4,75\boldsymbol{J = 8{,}69 \times 10^{5}\,\frac{Q^{1{,}75}}{D^{4{,}75}}}J=8,69×105×0,4441,7527,84,75=0,029 mca/mJ = 8{,}69 \times 10^5 \times \frac{0{,}444^{1{,}75}}{27{,}8^{4{,}75}} = 0{,}029 \text{ mca/m}

Perda do trecho:

Δh=J (L+∑Leq)\boldsymbol{\Delta h = J\,(L + \sum L_{eq})}Δh=0,029×(18+6,5)=0,71 mca\Delta h = 0{,}029 \times (18 + 6{,}5) = 0{,}71 \text{ mca}
Darcy-Weisbach com Colebrook-White

Velocidade:

v=4 Qπ D2\boldsymbol{v = \frac{4\,Q}{\pi\,D^2}}v=4×0,000444π×0,02782=0,73 m/sv = \frac{4 \times 0{,}000444}{\pi \times 0{,}0278^2} = 0{,}73 \text{ m/s}

Número de Reynolds:

Re=v Dν\boldsymbol{Re = \frac{v\,D}{\nu}}Re=0,73×0,02781,004×10−6=20 300Re = \frac{0{,}73 \times 0{,}0278}{1{,}004 \times 10^{-6}} = 20\,300

Turbulento. Com ε=0,06\varepsilon = 0{,}06 mm, ε/D=0,00216\varepsilon/D = 0{,}00216, a iteração de Colebrook-White converge em f=0,030f = 0{,}030.

Perda unitária:

J=f v22 g D\boldsymbol{J = f\,\frac{v^2}{2\,g\,D}}J=0,030×0,7322×9,81×0,0278=0,0295 mca/mJ = 0{,}030 \times \frac{0{,}73^2}{2 \times 9{,}81 \times 0{,}0278} = 0{,}0295 \text{ mca/m}

As duas fórmulas dão praticamente o mesmo resultado, como é de esperar para PVC nessa faixa de diâmetro.

Como o UnMEP Aqua calcula

Em Configurações Gerais › Opções de Pressão você escolhe a fórmula do projeto: Darcy-Weisbach (padrão) ou Fair-Whipple-Hsiao. A escolha vale para o alimentador, as peças de água fria e quente e o boiler; o recalque usa sempre Fair-Whipple-Hsiao.

  • Viscosidade: 1,004 × 10⁻⁶ para água fria e 0,658 × 10⁻⁶ para água quente, editáveis.
  • Rugosidade por material: a tabela acima, editável. O Aqua identifica o material pelo tipo de tubo do Revit (PVC, CPVC, PPR, PEAD, PEX, aço); tipo desconhecido usa "material não identificado". Se um trecho mistura materiais, vale a maior rugosidade.
  • Colebrook-White é resolvida por Newton-Raphson até a diferença entre iterações ficar abaixo de 0,1 %.
  • Comprimentos equivalentes: cada conexão da biblioteca UnMEP traz os parâmetros UnMEP - Comprimento Equivalente (Passagem Direta) e (Passagem Lateral); o Aqua escolhe o certo pelo caminho da água no tê. Conexão de outra biblioteca entra com perda zero. O total do trecho vai para UnMEP: Comprimento Equivalente no tubo e para a coluna "equiv." do memorial, ao lado de "real", "distrib." e "localiz.".
Opções de Pressão: a fórmula, as viscosidades e a rugosidade de cada material
Opções de Pressão: a fórmula, as viscosidades e a rugosidade de cada material
O memorial: perda unitária, comprimentos real e equivalente, perdas distribuída e localizada
O memorial: perda unitária, comprimentos real e equivalente, perdas distribuída e localizada

Passo a passo no plugin: Entenda: as Configurações Gerais e Entenda: o que o modelo precisa ter.

Perguntas frequentes

Darcy ou Fair-Whipple? Para PVC, CPVC e PPR até DN 100 as duas dão o mesmo, e Fair-Whipple-Hsiao é mais simples de conferir à mão. Darcy-Weisbach é a escolha para aço, ferro ou diâmetros maiores, onde a rugosidade pesa, e é a que a NBR 5626:2020 aponta como mais indicada (nota de 6.14.4).

Por que o diâmetro conta tanto? A perda cai com o diâmetro elevado a 4,75 (Fair-Whipple) ou a 5 (Darcy). De DN 25 para DN 32 a perda cai a um terço; para DN 40, a um décimo.

Comprimento equivalente ou coeficiente K? São duas formas da mesma coisa: Leq=K D/fL_{eq} = K\,D/f. Instalações prediais usam comprimento equivalente por ser tabelado por diâmetro e somar direto ao tubo.

Fontes

  • ABNT NBR 5626:2020, Sistemas prediais de água fria e água quente: projeto, execução, operação e manutenção (6.14.3 e 6.14.4).
  • ABNT NBR 5626:1998, Instalação predial de água fria (A.2.1, fórmulas de Fair-Whipple-Hsiao; A.2.2 e tabelas A.2 e A.3, comprimentos equivalentes; A.2.3, registros).
  • Porto, R. M. Hidráulica Básica. EESC-USP, 2006.
  • Azevedo Netto, J. M. Manual de Hidráulica. Blucher, 8ª ed.
  • Fox, R. W.; McDonald, A. T.; Pritchard, P. J. Introdução à Mecânica dos Fluidos. LTC, 8ª ed., 2014 (viscosidade da água).

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Atualizado em 14 de outubro de 2026