Documentação técnica

Como dimensionar condutores verticais de águas pluviais (NBR 10844)

O diâmetro mínimo de 70 mm, os ábacos da NBR 10844 e os métodos de cálculo da vazão admissível de um condutor vertical: tabela de condutores horizontais, Frutuoso Dantas, National Plumbing Code (Azevedo Netto), Professor Pimenta e Manning-Strickler. Exemplo resolvido comparando os métodos e como o UnMEP Pluv calcula.

O condutor vertical é a prumada que recebe a água da calha e a desce até o condutor horizontal. Ele nunca escoa cheio: a água desce colada à parede do tubo, num anel, com ar no meio. Por isso a capacidade de um condutor vertical é bem maior que a de um tubo horizontal do mesmo diâmetro, e por isso há vários métodos, com resultados bem diferentes, para estimar quanto ele admite.

O que a NBR 10844 pede

  • Diâmetro interno mínimo de 70 mm para condutor de seção circular (item 5.6.3). Em PVC para esgoto e águas pluviais, o primeiro diâmetro comercial que atende é o DN 75.
  • Dimensionamento por ábaco. A norma dimensiona a partir de três dados: a vazão de projeto QQ (L/min), a altura da lâmina d'água na calha HH (mm) e o comprimento do condutor LL (m) (item 5.6.4). A Figura 3 traz dois ábacos, (a) para calha com saída em aresta viva e (b) para calha com funil de saída: sobe-se uma vertical por QQ até as curvas de HH e LL, leva-se a interseção mais alta ao eixo DD e adota-se o DN cujo diâmetro interno seja igual ou maior (item 5.6.4.1). Os ábacos foram construídos para condutores rugosos, com coeficiente de atrito f=0,04f = 0{,}04 e dois desvios na base (item 5.6.4.2). O ábaco é gráfico, feito para leitura à mão; o UnMEP Pluv não o lê, e oferece em seu lugar os métodos abaixo, que estão na literatura de instalações prediais, não na norma.
  • Uma só prumada, sempre que possível; os desvios devem ser feitos com curvas de 90° de raio longo ou curvas de 45°, com peças de inspeção (item 5.6.1). O condutor pode correr por fora ou por dentro do edifício (item 5.6.2).

Os métodos de cálculo

Em todos, QQ é a vazão em L/min e DD o diâmetro em mm. A vazão de projeto é a soma das calhas (ou áreas) que chegam na prumada, do artigo Áreas e vazão de projeto.

1. Tabela 4 de condutores horizontais da NBR 10844

Usa a capacidade de um tubo horizontal com lâmina em 2/3 do diâmetro e n=0,011n = 0{,}011, a 0,5 % ou a 1 % de declividade (Tabela 4 da norma), como limite para a prumada. Os números são da norma, mas o uso deles para a prumada não é: a NBR 10844 dimensiona o condutor vertical pelos ábacos. É o método mais conservador: um tubo vertical escoa muito mais que isso.

DN (mm)75100125150200250300
Horizontal a 0,5 % (L/min)952043706021 3002 3503 820
Horizontal a 1 % (L/min)1332875218471 8203 3105 380

2. Frutuoso Dantas

Fórmulas em função do diâmetro e da altura da lâmina d'água na calha HH (mm) na entrada do condutor: quanto mais alta a lâmina na calha, mais a água "empurra" para dentro do tubo.

Q=0,0116 D H1,5se H/D<1/3Q = 0{,}0116 \, D \, H^{1{,}5} \qquad \text{se } H/D < 1/3 Q=0,0039 D2 H0,5se H/D≥1/3Q = 0{,}0039 \, D^2 \, H^{0{,}5} \qquad \text{se } H/D \geq 1/3

Com HH pequeno (lâmina baixa na calha) a capacidade cai muito. É o método que mais pune a calha larga e rasa.

3. National Plumbing Code (Azevedo Neto)

Vazões por diâmetro do código americano de instalações, na forma apresentada por Azevedo Netto. É o método padrão do UnMEP Pluv.

DN (mm)75100150200250
Q admissível (L/min)339,6706,92 088,84 486,28 099,4

4. Professor Pimenta (1963)

Tabela de Azevedo Netto para condutores de 75, 100 e 150 mm, que depende de uma vazão de referência Q∗Q^* em L/s (a vazão de projeto reduzida ao diâmetro pela relação (D/50)2,5(D/50)^{2{,}5}) e da relação h∗h^* entre as medidas da calha. Vale só para Q∗≤1,92Q^* \leq 1{,}92 L/s e h∗≤0,5h^* \leq 0{,}5.

DN (mm)Q∗<1,65Q^* < 1{,}651,65≤Q∗<1,921{,}65 \leq Q^* < 1{,}92Q∗≥1,92Q^* \geq 1{,}92
75268,0272,9317,6
100550,2560,3652,0
1501 514,41 542,41 794,8

5. Manning-Strickler para escoamento anular

Aplica Manning ao anel de água que desce colado à parede, com YY a fração da seção ocupada pela água:

Q=0,000187n Y5/3 D8/3Q = \frac{0{,}000187}{n} \, Y^{5/3} \, D^{8/3}

com n=0,011n = 0{,}011 para PVC, PEAD, aço e alumínio e 0,0120{,}012 para ferro fundido. Y=0,25Y = 0{,}25 é o valor usual; acima de 1/3 a seção fica ocupada demais, o escoamento tende a encher o tubo e há risco de sifonamento.

Gráfico da vazão admissível de um condutor vertical em função do diâmetro, de 75 a 300 mm, pelos quatro métodos: National Plumbing Code, Manning-Strickler com Y = 25 %, tabela de condutores horizontais a 1 % e Frutuoso Dantas com H = 20 mm; a diferença entre o mais e o menos conservador passa de dez vezes

Exemplo resolvido

A residência dos artigos anteriores: a prumada sul recebe a calha sul, com 194,3 L/min; a norte, 146,5 L/min. A calha é retangular de 20 × 10 cm, com lâmina de projeto em 50 % e ocupada a 49 %.

GrandezaSímboloValor
Vazão da prumada sulQsulQ_{sul}194,3 L/min
Vazão da prumada norteQnorteQ_{norte}146,5 L/min
Calha retangular: largura × alturab×ab \times a20 × 10 cm
Lâmina de projeto da calha%h\%h50 % da altura
Ocupação da calha sulQproj/QQ_{\text{proj}}/Q49 %
Material da prumadaPVCn=0,011n = 0{,}011
Fração da seção ocupada (Manning-Strickler)YY25 %
National Plumbing Code (o padrão do Pluv)

DN 75 admite 339,6 L/min. Ocupação de cada prumada:

ocupac¸a˜o=QQadm\boldsymbol{\text{ocupação} = \frac{Q}{Q_{adm}}}Sul: 194,3339,6=57 %\text{Sul: } \frac{194{,}3}{339{,}6} = 57\,\%Norte: 146,5339,6=43 %\text{Norte: } \frac{146{,}5}{339{,}6} = 43\,\%

DN 75 nas duas prumadas.

Tabela de condutores horizontais a 1 %

DN 75 admite 133 L/min: não basta. DN 100 admite 287 L/min: sul em 68 %, norte em 51 %. DN 100. A 0,5 % seria DN 100 em 95 % (sul) ou DN 125 em 53 %.

Frutuoso Dantas

A lâmina real na calha sul: 10 cm de altura × 50 % de lâmina de projeto × 49 % de uso = 2,43 cm, ou H=24,3H = 24{,}3 mm.

DN 75: H/D=0,324<1/3H/D = 0{,}324 < 1/3, então vale a primeira fórmula:

Q=0,0116 D H1,5\boldsymbol{Q = 0{,}0116 \, D \, H^{1{,}5}}Q=0,0116×75×24,31,5=0,0116×75×119,9=104,3 L/minQ = 0{,}0116 \times 75 \times 24{,}3^{1{,}5} = 0{,}0116 \times 75 \times 119{,}9 = 104{,}3 \text{ L/min}194,3104,3=186 %\frac{194{,}3}{104{,}3} = 186\,\%

Reprovado. Mesma fórmula com D=150D = 150 (H/D=0,162H/D = 0{,}162): Q=208,6Q = 208{,}6 L/min (93 %). Com D=200D = 200: 278,2 L/min (70 %). Por este método a prumada sul vai a DN 200, ou a calha precisa ser mais funda para a lâmina subir.

Manning-Strickler, Y = 25 %

PVC, n=0,011n = 0{,}011. DN 75:

Q=0,000187n Y5/3 D8/3\boldsymbol{Q = \frac{0{,}000187}{n} \, Y^{5/3} \, D^{8/3}}Q=0,0001870,011×0,255/3×758/3=168,7 L/minQ = \frac{0{,}000187}{0{,}011} \times 0{,}25^{5/3} \times 75^{8/3} = 168{,}7 \text{ L/min}194,3168,7=115 %\frac{194{,}3}{168{,}7} = 115\,\%

Reprovado. Mesma fórmula com D=100D = 100:

Q=0,0992×215 443×0,017=363,4 L/minQ = 0{,}0992 \times 215\,443 \times 0{,}017 = 363{,}4 \text{ L/min}194,3363,4=53 %\frac{194{,}3}{363{,}4} = 53\,\%

DN 100.

Professor Pimenta

Relação entre as medidas da calha e vazão de referência para DN 75:

h∗=ba\boldsymbol{h^* = \frac{b}{a}}h∗=2010=2h^* = \frac{20}{10} = 2Q∗=Q(D/50)2,5×160\boldsymbol{Q^* = \frac{Q}{(D/50)^{2{,}5}} \times \frac{1}{60}}Q∗=194,31,52,5×160=1,18 L/sQ^* = \frac{194{,}3}{1{,}5^{2{,}5}} \times \frac{1}{60} = 1{,}18 \text{ L/s}

h∗=2h^* = 2 está acima do limite de 0,5 do método. O método não se aplica a essa calha: o Pluv avisa e deixa a vazão admissível em zero.

MétodoPrumada sul (194,3 L/min)
National Plumbing CodeDN 75 (57 %)
Condutor horizontal a 1 %DN 100 (68 %)
Condutor horizontal a 0,5 %DN 125 (53 %)
Manning-Strickler Y = 25 %DN 100 (53 %)
Frutuoso Dantas, H = 24,3 mmDN 200 (70 %)

A escolha do método é do projetista. O National Plumbing Code e o Manning-Strickler refletem o escoamento anular real da prumada; as tabelas de condutor horizontal são um limite conservador; Frutuoso Dantas depende da lâmina na calha e penaliza calhas rasas.

Como o UnMEP Pluv calcula

O método vale para o projeto inteiro e fica em Configurações › Condutores Verticais, no campo Método de Cálculo a Ser Adotado (de fábrica, Método do National Plumbing Code (Azevedo Neto)). Na aba Condutores Verticais, cada cartão tem o botão m² (o que chega: áreas, calhas e outros condutores), Número de Tubos, ØDN e Material:

  1. Vazão solicitada é a soma das vazões das áreas, calhas e condutores marcados.
  2. Vazão admissível é a de um tubo, pelo método, vezes o Número de Tubos. A lista de ØDN só mostra os diâmetros que o método tem: 75 a 300 nos métodos 1, 2 e 5; 75, 100, 150, 200 e 250 no National Plumbing Code; 75, 100 e 150 no Professor Pimenta.
  3. Frutuoso Dantas tira o HH das calhas ligadas ao condutor: para calha retangular, altura × %h × porcentagem de uso da calha (a lâmina real, como no exemplo); para semicircular, metade do diâmetro × %h. Usa a menor lâmina entre as calhas. Sem calha ligada, usa o campo H (Padrão) das Configurações (de fábrica, 20 mm). A fronteira entre as duas fórmulas é H/D=0,33H/D = 0{,}33.
  4. Professor Pimenta calcula h∗=b/ah^* = b/a da calha (largura ÷ altura, a maior entre as calhas ligadas) e Q∗=Q/(D/50)2,5/60Q^* = Q / (D/50)^{2{,}5} / 60. Fora dos limites, abre a caixa Método de cálculo não suportado com os valores calculados e zera a vazão admissível.
  5. Manning-Strickler usa o Y das Configurações (de fábrica, 25 %); ao digitar um Y acima de 33 % o Pluv avisa e oferece voltar a 33 %. É o único método em que o Material muda o resultado (nn); nos métodos National Plumbing Code, Frutuoso Dantas e Professor Pimenta o material fica travado em PVC.
  6. O cabeçalho do cartão mostra a porcentagem solicitada ÷ admissível: verde até 74 %, amarelo de 75 % a 99 %, vermelho acima de 100 %. Com Redimensionar tubos automaticamente em Sim, sempre que a vazão solicitada muda o Pluv volta o condutor para 1 tubo e acrescenta tubos até ficar em 80 % ou menos.
  7. No memorial, [TABELA_CONDUTORES_VERTICAIS] traz código, nome, DN, número de tubos e as vazões; [MEM_CV_PARAM_LABEL] registra o H ou o Y do método, quando há.
Configurações › Condutores Verticais: o método de cálculo do projeto e o redimensionamento automático
Configurações › Condutores Verticais: o método de cálculo do projeto e o redimensionamento automático
Quatro prumadas pelo National Plumbing Code: as de DN 150 em 82 % (amarelo), a de DN 100 em 58 % (verde) e a de DN 75 em 128 % (vermelho)
Quatro prumadas pelo National Plumbing Code: as de DN 150 em 82 % (amarelo), a de DN 100 em 58 % (verde) e a de DN 75 em 128 % (vermelho)
O aviso do método Professor Pimenta fora dos limites, com a vazão de referência e o h* calculados
O aviso do método Professor Pimenta fora dos limites, com a vazão de referência e o h* calculados

Passo a passo no plugin: Como dimensionar um condutor vertical?, Entenda: os métodos de cálculo dos condutores verticais e Como definir os padrões do Pluv (Configurações)?.

Perguntas frequentes

Qual é o diâmetro mínimo do condutor vertical? 70 mm de diâmetro interno, pelo item 5.6.3 da NBR 10844; na prática, DN 75 de PVC. Em telhados pequenos de residência o DN 75 costuma bastar; em galpões, DN 100 e 150 são a regra.

Posso usar a tabela de condutores horizontais para a prumada? Pode, e fica a favor da segurança: o tubo vertical escoa várias vezes mais que o horizontal. O preço é um diâmetro maior que o necessário.

Por que os métodos dão resultados tão diferentes? Porque modelam coisas diferentes: a entrada da água na calha (Frutuoso Dantas), o anel de água descendo (Manning-Strickler), ensaios de laboratório (Plumbing Code) ou um tubo horizontal (tabela). Para a mesma prumada, a diferença entre o mais e o menos conservador passa de dez vezes. Escolha um método, registre no memorial e use o mesmo no projeto inteiro. Se quiser o resultado da norma, leia o ábaco da Figura 3 com a vazão, a lâmina na calha e o comprimento da prumada, e compare.

Fontes

  • ABNT NBR 10844:1989, Instalações prediais de águas pluviais (item 5.6.1: prumada única e desvios; 5.6.3: diâmetro interno mínimo de 70 mm; 5.6.4 e Figura 3: ábacos de condutores verticais; Tabela 4: condutores horizontais).
  • Azevedo Netto, J. M. Manual de Hidráulica. Blucher, 8ª ed. (National Plumbing Code, Professor Pimenta e Frutuoso Dantas).
  • Creder, H. Instalações Hidráulicas e Sanitárias. LTC, 6ª ed.
  • Macintyre, A. J. Instalações Hidráulicas Prediais e Industriais. LTC, 4ª ed.

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Atualizado em 14 de outubro de 2026